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Ministro da Fazenda lançou medidas para levantar R$ 243 bi, como um Refis tributário, reoneração de impostos e mudança no Carf, mas especialistas são céticos

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, lançou na quinta-feira uma série de medidas econômicas para melhorar as contas públicas. As ações preveem aumentar a arrecadação do governo federal em R$ 192,7 bilhões, além de um corte de gastos de R$ 50 bilhões.

São medidas que incluem reoneração de impostos e uma espécie de Refis de dívidas tributárias. No total, as medidas somam R$ 242,7 bilhões, entre receitas e cortes de gastos. As iniciativas seriam suficientes para reverter o déficit e recolocar o país no azul em 2023. Mas o ministro não apresentou nenhuma ação efetiva de corte de gastos e admitiu que o efeito pode ficar abaixo do esperado.

Opinião parecida têm advogados tributaristas ouvidos pelo GLOBO. Os especialistas apontaram retrocessos judiciais e afirmaram que, na prática, as medidas não vão resolver o rombo nas contas públicas como Haddad espera. Eles também avaliam que podem causar outros problemas.

Uma das medidas anunciadas é o programa Litígio Zero, espécie de Refis de dívidas tributárias para pessoas físicas e jurídicas, com descontos e prazo de até 12 meses para pagamento (veja quadro ao lado).

Para o advogado tributarista Eduardo Lustosa, o Litígio Zero (que Haddad afirma não ser um Refis) será importante para aliviar o caixa das empresas, principalmente depois dos dois anos de pandemia agravados pela crise financeira. Mas sua percepção não é a mesma sobre o anúncio da exclusão do ICMS da base de cálculo dos créditos de PIS/Cofins.

— Perdendo o direito deste crédito, o empresário tem menos desconto e, portanto, vai pagar mais. Com isso, o tributo sobre o produto aumenta e, consequentemente, é repassado ao consumidor final — explica Lustosa, sócio da Lustosa e Las Heras Advogados.

Outra ação anunciada é o fim do desempate a favor dos contribuintes nos julgamentos do Conselho de Administração de Recursos Fiscais (Carf). Esse modelo substituiu, em 2020, o voto de qualidade — que é o desempate pelo voto duplo de um representante da Receita.

O Carf é o tribunal administrativo do Fisco, ao qual recorrem contribuintes (na maioria dos casos pessoas jurídicas) que não concordam com sanções tributárias aplicadas pela Receita.

Os empates nos julgamentos do Carf costumam ocorrer nos assuntos mais disputados tanto pelas teses jurídicas quanto pelos valores envolvidos. Há hoje cerca de R$ 1 trilhão em discussão no Carf. São processos que contestam a incidência de tributos e multas aplicadas por auditores fiscais.

Outra medida envolvendo o Carf é a extinção dos recursos para dívidas abaixo de R$ 15 milhões, encerrando o litígio. Hoje a Fazenda recorre automaticamente de uma derrota sofrida na disputa por uma cobrança desse valor. A Fazenda estima que vai arrecadar R$ 50 bilhões com a “redução de litigiosidade do Carf”.

‘Decisões vão aumentar litígio’, diz advogado

 

Sobre o fim do desempate a favor dos contribuintes nos julgamentos administrativos do Conselho de Administração de Recursos Fiscais (Carf), André Félix Ricotta de Oliveira, da Félix Ricotta Advogados, pontua que o ministro está descartando toda a discussão realizada nos anos anteriores pelo poder legislativo:

— Ele (Haddad) quer apresentar uma mudança sem reflexão, sendo que já houve debate da sociedade anteriormente com comissão de juristas sobre isso. Estas decisões só vão aumentar o litígio.

Lustosa explica que os julgamentos do voto de qualidade, vigentes até 2020, eram compostos por oito pessoas, sendo quatro representantes dos contribuintes e quatro da Receita Federal. O presidente da Turma é alguém do Fisco e, como este tem direito a um voto também, na conta prática, em caso de empate, o governo sempre tinha cinco votos.

No modelo atual, é o contrário: se houver empate, a decisão é favorável ao contribuinte. Por outro lado, não há espaço para a Receita recorrer. É essa desvantagem para o governo que Haddad quer reverter.

— Não tem meio termo. A saída mais justa, a meu ver, é manter a extinção do voto de qualidade, que favorece o contribuinte, mas com abertura para que a decisão seja questionada depois — diz Lustosa.

Para especialista, ‘mudanças trazem insegurança jurídica’

 

Daniel Moreti, sócio do Fonseca Moreti Advogados, diz que as matérias julgadas pelo Carf com voto de desempate favorável aos contribuintes não estavam pacificadas pelo Poder Judiciário.

— Os fundamentos apresentados pelo Ministério da Economia são, no mínimo, duvidosos. Ademais, não se pode comparar aquilo que foi chamado de padrões do mundo, que são completamente distintos do sistema tributário brasileiro. Em suma, o conjunto de medidas anunciadas demonstra, na prática, uma única preocupação, que é a equalização da arrecadação federal no ano de 2023.

Carla Mendes Novo, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Tributação do Insper, acredita que as medidas em relação ao Carf serão objeto de muito debate e podem ser questionadas, em especial a extinção do voto de qualidade:

— Essas mudanças trazem insegurança jurídica. Mudou em 2020, agora de novo. Essa medida pode se reverter contra o Fisco. Ao não resolver na esfera administrativa, o contribuinte pode recorrer à Justiça.

Ela afirma que os julgamentos no tribunal foram afetados na pandemia e houve uma trava nos valores para as sessões virtuais a R$ 36 milhões, mas os processos continuaram entrando. Os julgamentos só voltaram a ser presenciais em setembro do ano passado.

— Entendo como um retrocesso a alguns avanços. O ministro disse que o estoque de processos no Carf aumentou, mas não dá para correlacionar esse aumentou somente ao voto de qualidade. Houve outros elementos.

Ministro eleva projeção de receitas em R$ 36 bi

 

A revisão das receitas traz ainda uma novidade: a restrição do aproveitamento do ICMS nos créditos de impostos federais, com potencial de elevar as receitas em R$ 30 bilhões. Na prática, fica excluído o ICMS da base de cálculo dos créditos de PIS/Cofins, como determina decisão do STF.

Haddad anunciou também que o governo vai elevar em R$ 36,4 bilhões a projeção de receitas neste ano. Isso se refere a uma previsão mais otimista de arrecadação na comparação com o projeto orçamentário aprovado pelo Congresso.

Na lista de ações também está a volta da cobrança dos impostos federais (PIS/Cofins) sobre combustíveis, com impacto de R$ 28 bilhões. No dia 2, o governo manteve a desoneração da gasolina e do etanol por 60 dias e do diesel e do gás de cozinha por um ano. O próprio ministro, porém, afirmou que o governo ainda não tomou uma decisão sobre o assunto e que isso só será feito após o senador Jean Paul Prates (PT-RN) assumir a Petrobras.

A Fazenda prevê ainda a reoneração do PIS/Cofins sobre a receita financeira de grandes empresas, um dos últimos atos da gestão Jair Bolsonaro, com impacto de R$ 4,4 bilhões. Conforme autorizado pela “PEC da Transição”, o ministério pretende também injetar R$ 23 bilhões em receitas do PIS/Pasep que estão paradas em contas há mais de 20 anos.

Promessa de corte de R$ 25 bi, mas sem dizer como

 

Já do lado das despesas, o governo espera cortar R$ 25 bilhões com a revisão de contratos e programas em todos os ministérios, mas os ministros Haddad e Simone Tebet não deram detalhes.

Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, é factível um déficit primário de 1%. O fim das desonerações, a receita com PIS/Pasep e o crédito do ICMS e a revisão das receitas é o que se consegue ganhar esse ano na parte da arrecadação, na opinião dele.

— Com o Carf, em termos de recursos, é muito difícil de acontecer a previsão do governo, está excessivamente otimista — avalia.

A dificuldade, diz Vale, é em relação ao que vai ser feito com os gastos. Para ele não houve clareza no ajuste que o governo pretende fazer.

Para Margarida Gutierrez, professora da Coppead/UFRJ, é muito positiva a preocupação com o déficit primário, que vai definir a trajetória da dívida pública. Ela diz, porém, que há muita incerteza em relação às receitas, inclusive à nova estimativa de arrecadação e à reoneração dos combustíveis, que ainda é incerta:

— As medidas de corte de gastos estão muito genéricas. São R$ 50 bilhões de ajuste sem muita explicação.

Fonte: O Globo – Via Fenafisco