Notícias

Compartilhe:

A pandemia gerou um recorde de demissões e fechamento de empresas em 2020, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Só no comércio, 106,6 mil estabelecimentos, ou 7,4% do total então existente, encerraram as atividades no primeiro ano da crise sanitária. Segundo a Pesquisa Anual de Comércio (PAC) 2020, houve ainda uma queda de 4% na quantidade de pessoas ocupadas no setor.

Durante o período, mais de 404 mil postos de trabalho foram perdidos, sendo 90,4% deles no varejo. Já o atacado suavizou o desempenho negativo geral, após aumento de 2,2% na ocupação e de 1,3% no número de empresas naquele mesmo ano. Foi a maior queda na ocupação do comércio, no intervalo de um ano, desde o início da série histórica da pesquisa, em 2007.

Apesar da leve melhora do segmento desde então, milhares de brasileiros ainda lutam para se recuperar. A artesã Daniela Flores, de 41 anos, foi uma das pessoas que precisou fechar sua loja em 2020. O empreendimento, que havia sido aberto apenas um ano antes, vendia produtos como acessórios e fantasias infantis e imagens religiosas. “Ficou insustentável manter o aluguel e os demais custos do espaço com o lockdown. Foi aí que eu decidi seguir com o ateliê em casa — e assim estou até hoje”, contou.

O economista César Bergo, sócio diretor da OpenInvest, lembrou que muitos comércios não tinham uma reserva financeira para se manterem no mercado. “Além disso tudo, veio o incentivo ao e-commerce e ao delivery, então muitas pessoas que trabalhavam no comércio perderam postos de trabalho e também tiveram que se reinventar na sua atuação. Outro aspecto importante foram os autônomos”, disse.

Entre as atividades, a maior redução foi de um setor bastante atingido pelas medidas de distanciamento social. Em um ano, o segmento varejista de tecidos, vestuário, calçados e armarinho sofreu retração de 176,6 mil trabalhadores, o que representa uma perda de 15,3% do contingente de ocupados. Além disso, o número de empresas desse setor caiu 15,6%. Isso corresponde a 32,6 mil estabelecimentos comerciais.

“O volume expressivo da queda nesse setor chama a atenção e representa de forma significativa aquelas lojas que tiveram suas atividades mais afetadas pela necessidade de isolamento social, seja no comércio popular, seja em shoppings. Todos esses estabelecimentos em que a venda presencial é muito importante para experimentar a mercadoria sentiram os efeitos da pandemia de forma mais acentuada nesse primeiro ano”, explicou a gerente de Análise Estrutural do IBGE, Synthia Santana.

Apenas duas atividades varejistas criaram empregos: os hipermercados e supermercados e as lojas de produtos farmacêuticos, cosméticos e artigos médicos. Ambas foram consideradas serviços essenciais durante a pandemia, e tiveram autorização para funcionar com menos restrições. Além disso, acabaram sendo bastante demandadas pelos consumidores.

Queda salarial

Os salários no comércio caíram 5,7% em 2020 na comparação com 2019, em termos reais (descontada a inflação). A remuneração média mensal do trabalhador do setor ficou em 1,8 salário-mínimo em 2020, abaixo do 1,9 salário-mínimo de 2019, recuando ao patamar verificado em 2012.

O economista e professor da Universidade de Brasília (UnB) Newton Marques destacou como esses impactos são sentidos até os dias de hoje. “O governo tentou reativar a economia, mas ainda não temos uma recuperação sólida e auto sustentada. A massa salarial é o que sustenta o consumo. Isso se refletiu muito também no aumento do endividamento e da inadimplência. Então, apesar de uma certa recuperação, a situação ainda está bem complicada para as pessoas que dependem do comércio para sobreviver”, afirmou.

Via Correio Braziliense