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Avaliação é de Banco Central vai limitar o cenário para quem acredita em queda rápida dos juros em 2023

BRASÍLIA e SÃO PAULO – Ainda que não haja consenso absoluto sobre a decisão de política monetária a ser anunciada nesta quarta-feira, 21, os economistas do mercado financeiro parecem convencidos de que o Banco Central deve comunicar uma “parada hawkish” – ou seja, manter a Selic em 13,75%, encerrando o ciclo de altas iniciado no ano passado, mas trazer um comunicado em tom mais duro, para limitar o cenário de queda rápida dos juros presente em boa parte das análises.

Para os especialistas consultados pelo Estadão/Broadcast, o Copom precisa reforçar que está “vigilante” com a inflação para evitar que o mercado comece a projetar um recuo célere da Selic em 2023. A ideia é que Copom o transfira o discurso recente da diretoria para o papel, indicando no comunicado cautela com o fim do ciclo e que não pensa em cortes neste momento.

Para a decisão de hoje, a expectativa majoritária é de manutenção da Selic em 13,75%, consagrando o ponto final do ciclo que, até aqui, teve 12 altas consecutivas desde a mínima histórica de 2%. Mas parte do mercado admite que as chances de o juro chegar a 14% aumentaram após o presidente do BC, Roberto Campos Neto, e o diretor de Política Monetária, Bruno Serra, reiterarem que um possível ajuste residual de 0,25 ponto porcentual seria avaliado em setembro.

Conforme pesquisa realizada pelo Projeções Broadcast, 41 das 50 instituições consultadas (82%) esperam manutenção do nível dos juros. Outras nove (18%) preveem um aumento residual de 0,25 ponto, a 14%, o que representaria o primeiro aperto monetário em período eleitoral desde 2002.

“Independentemente do término do ciclo em 13,75% ou 14%, o BC deve sinalizar que vai seguir perseverante para que a inflação convirja para o ‘redor da meta’, para que ninguém fique imaginando que o Copom deve começar os cortes no primeiro sinal de fraqueza da inflação. O Copom vai transformar em documento o que Campos Neto e Serra vocalizaram recentemente”, avalia o economista-chefe da Daycoval Asset, Rafael Cardoso.

Para o economista, o BC deve manter a Selic em 13,75% e só iniciar os cortes em agosto do próximo ano, mais tarde do que prevê o Boletim Focus (junho). Segundo ele, uma diferença marcante em relação ao fim do ciclo de aperto de 2015 é que, naquela oportunidade, os serviços já mostravam sinais mais claros de fraqueza. Mas simulações com o modelo de inflação do BC mostram que o patamar de 13,75% da Selic é suficiente para o retorno do IPCA – índice oficial de inflação – ao centro da meta em 2024 (3,00%), diz.

Para o Santander Brasil, o Copom deve manter a taxa Selic estável em 13,75%, mas reiterar que mantém uma postura “vigilante” e sinalizar que seu plano de voo inclui juros elevados por mais tempo. Desta forma, o comitê apertaria a política monetária “passivamente”, ao aguardar que a queda das expectativas de inflação eleve o juro real. “Esse aperto de política monetária é extremamente necessário para a convergência de inflação prevista no nosso cenário básico, que pode ocorrer em 2024?, afirma o superintendente de Pesquisa Macroeconômica do banco, Mauricio Oreng.

Apenas mantendo a taxa Selic estável em 13,75%, o BC conseguiria produzir o juro real mais restritivo desde 2002 no 2.º trimestre do ano que vem, nas contas do Santander. O banco espera redução da Selic a partir do segundo semestre de 2023, a 12% no fim do ano e 9% no final de 2024, ainda em nível contracionista.

Parte do mercado ainda é mais cautelosa e avalia que o BC deveria optar por sinalizar uma pausa no ciclo, em vez de decretar com todas as letras o final do processo de alta de juros. “Esperamos aumento da Selic a 14% nesta semana. A diferença de aperto de 0,25 ponto porcentual é insignificante, mas é o reforço da mensagem de que o BC está vigilante. E deveria ser acompanhado mais de um discurso de pausa do que uma sinalização de manutenção do juro por muito tempo”, diz Solange Srour, economista-chefe do Credit Suisse no Brasil.

Ela argumenta que ainda não houve efeito do célere aperto monetário na atividade e na inflação. Mas, ao mesmo tempo, a melhora do IPCA e a reversão das commodities incentiva o mercado a projetar cortes rápidos de juros em 2023, especialmente se a projeção de IPCA do BC para 2024 permanecer abaixo do centro da meta de 3%. Hoje, é de 2,7%.

Sede do Banco Central; economistas acreditam que BC irá manter a Selic em 13,75%, encerrando o ciclo de altas iniciado no ano passado, mas trará um comunicado em tom mais duro. Foto: André Dusek/Estadão

Nesse contexto, para evitar a intensificação da precificação de cortes, a comunicação será um desafio para o BC, avalia a economista. “Pausar é um alerta mais forte. Tem que traduzir o que os diretores falaram no comunicado”, diz Srour. O Credit estima o primeiro corte de juros em outubro de 2023, com a Selic terminando o próximo ano em 11,75%, mas a economista pondera que tudo depende de definições sobre a política fiscal.

“Em relação à comunicação, acreditamos que o Copom diria que a melhora nas perspectivas de inflação foi a principal motivação para ‘pausar’ (e não ‘encerrar’) o atual ciclo de aperto”, concorda o Citi, em relatório, prevendo que o BC deve dizer que vai monitorar efeitos e avaliar se serão necessários novos ajustes.

Horizonte relevante

Com a manutenção do corte de impostos federais sobre combustíveis indicada na proposta orçamentária de 2023, há um debate sobre o que o BC vai indicar como horizonte relevante de política monetária. Em agosto, o BC deu ênfase ao primeiro trimestre de 2024, em vez do foco tradicional no ano-calendário, com maior peso para 2023. O argumento é que tiraria o ruído da política de desonerações, que originalmente terminaria este ano, e que incorporaria os efeitos acumulados da alta de juros.

“Há muitos ruídos para o IPCA de 2023. E o horizonte relevante é móvel, seria estranho voltar atrás. Se o Copom suprimir o trecho que fala sobre a ênfase no primeiro trimestre de 2024, não deve se comprometer com outro período, só mencionar o horizonte relevante, algo que todo mundo já sabe a regra”, diz Cardoso, da Daycoval Asset.

Fonte:Terra