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Indicador que tenta antecipar a tendência do Produto Interno Bruto (PIB), IBC-Br registra queda de 1,13% em agosto, a maior desde março de 2021. Para analistas, recuo é efeito da elevação das taxas de juros

Após dois meses consecutivos em viés de alta, a atividade econômica brasileira encolheu mais do que o esperado pelo mercado. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), que procura antecipar a variação do Produto Interno Bruto (PIB), registrou em agosto contração de 1,13%. Foi a queda mensal mais intensa desde março de 2021, quando o índice recuou 3,6%.

O resultado de agosto não anulou o avanço do mês de julho, quando a alta foi de 1,67%. No acumulado em 12 meses o índice ainda registra um avanço de 2,08%. Segundo os analistas, o reflexo da queda de agosto vem da diminuição da produção industrial e das quedas nas vendas no varejo, em consequência das elevadas taxas de juros.

Em agosto, o setor de serviços, que representa cerca de 70% do PIB doméstico, teve seu quarto resultado positivo consecutivo, com alta de 0,7% no volume em relação a julho. Mas tanto as vendas no varejo (-0,1%) quanto a produção industrial (-0,6%) tiveram perdas no mês, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar de os indicadores do IBGE e do BC terem uma metodologia diferente, apontam para um esfriamento da economia.

“O resultado do setor de serviços, que veio acima do esperado, não foi suficiente para carregar o IBC-Br. O número reflete as atividades mais fracas, no período, tanto da indústria quanto do varejo, que sentem os efeitos iniciais da política monetária mais restritiva sobre suas atividades”, observou Eduardo Vilarim, economista do Banco Original.

O indicador do BC incorpora estimativas para a agropecuária, a indústria e o setor de serviços, além dos impostos, mas não considera o lado da demanda, incorporado no cálculo do PIB do IBGE. O IBC-Br é uma das ferramentas usadas pelo BC para definir a taxa básica de juros do país. Com o menor crescimento da economia, por exemplo, teoricamente haveria menos pressão inflacionária.

Segundo o economista e sócio da Nexgen Capital, Felipe Izac, uma atividade econômica mais baixa já era esperada pelo mercado no segundo semestre, após a sucessão de alta dos juros. “Apesar desse dado negativo, o mercado já estava de certa forma precificando isso. A alta de juros que ocorreu no Brasil para conter a inflação tem justamente esse efeito de desacelerar a economia, mas nada que nos preocupa por agora”, disse.

Projeções

O BC interrompeu, no mês passado, o ciclo de aperto monetário ao manter a taxa básica de juros, Selic, em 13,75% ao ano. A autoridade monetária ainda melhorou a projeção para o crescimento econômico em 2022, para 2,7%, ante estimativa de 1,7% feita em junho, repetindo a taxa de expansão do PIB calculada pelo Ministério da Economia.

Por mais que o IBC-Br tenha mostrado retração, muitos analistas mantiveram as projeções para o PIB em 2022. O Banco Original não mudou a perspectiva de resultado positivo para o PIB do terceiro trimestre, calculando crescimento de 0,5% no período. A estimativa da XP Tracker é de alta de 0,6% na comparação entre o 2° e o 3° trimestres, e de 3,6% na comparação com o terceiro trimestre do ano passado.

A expectativa é de que os estímulos fiscais dados pelo governo deem alguma sustentação à economia neste ano, apesar da política monetária restritiva. “Essa visão otimista vem por expectativas no estímulo fiscal, redução de impostos e transferências fiscais para famílias de baixa renda, que são mais propensas a consumir, além do mercado de trabalho aquecido e um recuo na inflação”, destacou o CEO da Box Asset Management, Fabrício Gonçalvez.

Incertezas relacionadas à eleição presidencial ainda pairam sobre a economia. Além disso, o aumento de juros nas principais economias do mundo segue no radar, uma vez que tende a retrair a atividade no mundo e afastar investimentos de países emergentes, como o Brasil. Apesar disso, com os estímulos fiscais, há um consenso entre os analistas de que a economia brasileira deve crescer próximo dos 3% neste ano e sofrer uma desaceleração em 2023.

Inflação em baixa

Analistas do mercado financeiro mantiveram a expectativa de redução na inflação para 2022. Segundo os dados do Boletim Focus, divulgados pelo Banco Central, a projeção para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deste ano passou de 5,71%, há uma semana, para 5,62%. Há um mês, a mediana era de 6%.

Para 2023, a estimativa recuou de 5% para 4,97%. Já para 2024, caiu de 3,47% para 3,43% — segunda semana de queda. As medianas na Focus para a inflação oficial em 2022 e 2023 estão se aproximando do teto da meta para esses horizontes, mas ainda apontam para três anos de descumprimento do mandato principal do BC. A meta de inflação para este ano é de 3,5% e será considerada cumprida se ficar entre 2% e 5%.

O mercado financeiro manteve o cenário para a taxa básica de juros, Selic, em linha com as sinalizações dadas pelo BC. A projeção para o fim deste ano continuou em 13,75% pela 17ª semana consecutiva. Mas os analistas elevaram a estimativa para o crescimento do país. A projeção para o Produto Interno Bruto (PIB) subiu de 2,70% para 2,71% neste ano e passou de 0,54% para 0,59%, em 2023.

A estimativa para o dólar tem se mantido estável há 12 semanas, com cotação prevista em R$ 5,20 por US$ 1, tanto para 2022 como para 2023.